segunda-feira, 19 de novembro de 2012
UNI-VERSO
"Treme a folha no galho mais alto" _ escrevo. Paro e sorvo, de olhos fechados, o cheiro bom da terra, do capim chovido... Parece que quer vir um poema... Abro os olhos e fico olhando, interrogativamente, a linha que escrevi no alto da página. Depois de longo instante, acrescento-lhe três pontinhos. Assim não ficará tão só enquanto aguarda as companheiras. O vento fareja-me a face como um cachorro. Eu farejo o poema. Ah, todo mundo sabe que a poesia está em toda parte, mas agora cabe toda ela na folha que treme.
Por que não caberia então em único verso? Um uni-verso.
Treme a folha no galho mais alto."
Mario Quintana
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Entre o já e o ainda
Já sinto o tempo cumprido,
mas ainda me habitam desejos por realizar.
Já tenho dores aqui e acolá
e ainda anseio por novas aventuras.
Já trago muitas marcas do tempo,
mas rejuvenesço ao fazer amor.
Já sinto que os filhos se foram,
mas também quero sair por aí.
Já tenho perdas doídas,
e ainda curto as novas conquistas.
Já tenho a vista cansada,
mas ainda choro diante da beleza.
Se é inegável que envelheço,
ainda sou menina no jeito espantado de ser.
Se amores antigos são sempre ainda,
ainda-sempre há amores por viver.
domingo, 4 de novembro de 2012
Pra sempre
"É uma princesa!"
Pensou, quando a viu,
altiva, no cavalo do rei.
Como era linda, aquela mulher impossível!
Mas...
reencontrou-a.
O rei tinha ido para outras paragens
e ela preferiu ficar.
Enlaçou-o num abraço
e, pra surpresa dele, ardorosamente,
beijou-o pela primeira vez.
Desejava transformar o sapo em príncipe.
E, pela vida afora, repetia o gesto-magia.
Em vão(pra sorte dos dois).
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
escrever - texto retalhos
Escrevo em estado de graça, escrevo para retirar-me de mim mesmo. Nenhuma palavra alcança o mundo, eu sei. Ainda assim, escrevo. Escrevo porque amanhece, escrevo impelida por um impulso incontrolável, minha relação com as palavras é orgástica, o fato central da minha vida foi a existência das palavras e a possibilidade de tecê-las em poesia, porque tu sabes que é de poesia, minha vida secreta.Escrever é também, virar a alma pelo avesso, desaguando as ideias guardadas no nosso íntimo. Escrever é enfiar um dedo na garganta. Pode sair até uma flor. Meu jeito preferido de prece. Minha maneira predileta de levar o coração pra pegar sol. Eu sempre escrevo assim que alguma coisa precisa ser expressa e isso nunca, jamais é uma decisão minha. Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir. Escrevo porque a palavra provoca em mim o desassossego, afia os mil instrumentos da vida, não escrevo para agradar e nem desagradar...escrevo para desassossegar.Escrevo sem pensar, tudo o que o meu inconsciente grita, se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir, o melhor de tudo é o que penso e sinto, pelo menos posso escrever; senão, me asfixiaria completamente. para que escrever tantas sílabas de sal e terra, se nenhum grão de terra e sal responderá? Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever, essas palavras que escrevo me protegem da completa loucura. Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo.
( texto-retalhos - composto por frases de autores diversos)
terça-feira, 18 de setembro de 2012
epigrama
É justamente neste estreito limite do (im)possível que o amor continua a insistir, para tornar viável o meu viver.
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
De mãe mulher para mãe mulher
Era uma vez uma mulher
que desandou a sonhar:
“Quero um bebê/menina
para o feminino celebrar."
Como à princesa,
disseram as fadas madrinhas:
“Que ela seja forte,
mas cultive a criança.
Que seja livre e seja bela
como um passo de dança.”
“Que seja: IS(A) – ADORA”
Que ame a vida
que ame o amor.
E sinta alegria
p`ra se espalhar.
Mas, às vezes, tristeza
p`ra se encontrar.”
“Que em seu sonho,
nas artimanhas do tempo,
também tenha lugar:
para um bebê/menina
e a vida, de novo,
celebrar.”
“Que em seu regaço
haja vazio/ espaço
para ser possível amar,
gerar, acolher, afagar
e ao mundo entregar:
MANU-ELA” (para Isadora, minha princesa)
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
O tempo
Onde foram parar tantos momentos de alegria? Que restaram dos encontros, depois de tantos desencontros? Que restou do amor e das promessas? Pra onde vai o amor quando o amor se acaba? Pergunta o Chico. Haveria um lugar onde ficam guardados os sonhos partilhados? As ilusões perdidas? Ele torna a perguntar.
Se amor é inventado , que fique em cada um a possibilidade de reinventá-lo a sua maneira, a cada dia. Vem-me a memória a linda musica: Resposta ao tempo. Ou seja, para dar um jeito na crueldade do tempo, só o poeta:
Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho
Prá ter argumento
Mas fico sem jeito
Calado, ele ri
Ele zomba
Do quanto eu chorei
Porque sabe passar
E eu não sei
Num dia azul de verão
Sinto o vento
Há folhas no meu coração
É o tempo
Recordo um amor que perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei
E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos
Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto
E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Prá tentar reviver
No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer
Assinar:
Postagens (Atom)