segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Entre o já e o ainda

Já sinto o tempo cumprido, mas ainda me habitam desejos por realizar. Já tenho dores aqui e acolá e ainda anseio por novas aventuras. Já trago muitas marcas do tempo, mas rejuvenesço ao fazer amor. Já sinto que os filhos se foram, mas também quero sair por aí. Já tenho perdas doídas, e ainda curto as novas conquistas. Já tenho a vista cansada, mas ainda choro diante da beleza. Se é inegável que envelheço, ainda sou menina no jeito espantado de ser. Se amores antigos são sempre ainda, ainda-sempre há amores por viver.

domingo, 4 de novembro de 2012

Pra sempre

"É uma princesa!" Pensou, quando a viu, altiva, no cavalo do rei. Como era linda, aquela mulher impossível! Mas... reencontrou-a. O rei tinha ido para outras paragens e ela preferiu ficar. Enlaçou-o num abraço e, pra surpresa dele, ardorosamente, beijou-o pela primeira vez. Desejava transformar o sapo em príncipe. E, pela vida afora, repetia o gesto-magia. Em vão(pra sorte dos dois).

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

escrever - texto retalhos

Escrevo em estado de graça, escrevo para retirar-me de mim mesmo. Nenhuma palavra alcança o mundo, eu sei. Ainda assim, escrevo. Escrevo porque amanhece, escrevo impelida por um impulso incontrolável, minha relação com as palavras é orgástica, o fato central da minha vida foi a existência das palavras e a possibilidade de tecê-las em poesia, porque tu sabes que é de poesia, minha vida secreta.Escrever é também, virar a alma pelo avesso, desaguando as ideias guardadas no nosso íntimo. Escrever é enfiar um dedo na garganta. Pode sair até uma flor. Meu jeito preferido de prece. Minha maneira predileta de levar o coração pra pegar sol. Eu sempre escrevo assim que alguma coisa precisa ser expressa e isso nunca, jamais é uma decisão minha. Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir. Escrevo porque a palavra provoca em mim o desassossego, afia os mil instrumentos da vida, não escrevo para agradar e nem desagradar...escrevo para desassossegar.Escrevo sem pensar, tudo o que o meu inconsciente grita, se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir, o melhor de tudo é o que penso e sinto, pelo menos posso escrever; senão, me asfixiaria completamente. para que escrever tantas sílabas de sal e terra, se nenhum grão de terra e sal responderá? Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever, essas palavras que escrevo me protegem da completa loucura. Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo. ( texto-retalhos - composto por frases de autores diversos)

terça-feira, 18 de setembro de 2012

epigrama

É justamente neste estreito limite do (im)possível que o amor continua a insistir, para tornar viável o meu viver.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

De mãe mulher para mãe mulher

Era uma vez uma mulher que desandou a sonhar: “Quero um bebê/menina para o feminino celebrar." Como à princesa, disseram as fadas madrinhas: “Que ela seja forte, mas cultive a criança. Que seja livre e seja bela como um passo de dança.” “Que seja: IS(A) – ADORA” Que ame a vida que ame o amor. E sinta alegria p`ra se espalhar. Mas, às vezes, tristeza p`ra se encontrar.” “Que em seu sonho, nas artimanhas do tempo, também tenha lugar: para um bebê/menina e a vida, de novo, celebrar.” “Que em seu regaço haja vazio/ espaço para ser possível amar, gerar, acolher, afagar e ao mundo entregar: MANU-ELA” (para Isadora, minha princesa)

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O tempo

Onde foram parar tantos momentos de alegria? Que restaram dos encontros, depois de tantos desencontros? Que restou do amor e das promessas? Pra onde vai o amor quando o amor se acaba? Pergunta o Chico. Haveria um lugar onde ficam guardados os sonhos partilhados? As ilusões perdidas? Ele torna a perguntar. Se amor é inventado , que fique em cada um a possibilidade de reinventá-lo a sua maneira, a cada dia. Vem-me a memória a linda musica: Resposta ao tempo. Ou seja, para dar um jeito na crueldade do tempo, só o poeta: Batidas na porta da frente É o tempo Eu bebo um pouquinho Prá ter argumento Mas fico sem jeito Calado, ele ri Ele zomba Do quanto eu chorei Porque sabe passar E eu não sei Num dia azul de verão Sinto o vento Há folhas no meu coração É o tempo Recordo um amor que perdi Ele ri Diz que somos iguais Se eu notei Pois não sabe ficar E eu também não sei E gira em volta de mim Sussurra que apaga os caminhos Que amores terminam no escuro Sozinhos Respondo que ele aprisiona Eu liberto Que ele adormece as paixões Eu desperto E o tempo se rói Com inveja de mim Me vigia querendo aprender Como eu morro de amor Prá tentar reviver No fundo é uma eterna criança Que não soube amadurecer Eu posso, ele não vai poder Me esquecer

terça-feira, 29 de maio de 2012

Qualquer coisa pode funcionar... ou não.

Whatever works – Tudo pode dar certo O que parece pretender Wood Allen, esse eterno neurótico questionador da existência desde o início de sua carreira como cineasta, neste filme?Acho que as possíveis traduções de whatever seja uma boa forma de contribuir para a roda de prosa dessa noite. Assim como o termo: estranho do ensaio freudiano, os sentidos da expressão idiomática whatever mostram coisas que podem ser contrárias. A tradução para o português apaga essa ambigüidade tão importante no filme. De acordo com Michaelis, dicionário ingles- portugues,podemos ver esses deslizamentosde sentido: Whatever-adj 1 qualquer, qualquer que, de qualquer tipo, seja qual for. 2 tudo o que, tudo quanto. 3 por mais que, não importa, o que quer que. 4 o que é que, que raios, que diabo. 5 de forma alguma, de nenhuma forma, absolutamente nenhum, sem nenhuma. Voltemos ao filme: Boris é um personagem que faz parte da linhagem da trilha de Wood Allen, que costumamos ver encarnados por ele mesmo em outros filmes. Alguém que questiona os valores, crenças e ilusões da humanidade, colocando o próprio eu em questionamento. Rimos do personagens e de nós mesmos. Também como em outros filmes, este é particularmente marcado por contradições, ambiguidades. Se por um lado Boris questiona as formas que considera sem requintes intelectuais,por outro lado sua sabedoria, seu QI de 200, quase ter ganhado o premio Nobel, não o livram de rituais protetores e supersticiosos, tais como, cantar “parabéns pra você” enquanto lava as mãos. Nem sua racionalidade o livra de acessos intempestivos de afetos que o levam, por exemplo, a saltar pela janela por duas vezes, quando é abandonado pela mulher, mesmo que a separação fosse previsível. Ou seja, o caminho da racionalidade, também não traz nenhuma garantia ao ser humano. Sou onde não penso, afirma a psicanálise a partir da hipótese do inconsciente. Parece que a questão do acaso tem sido um dos pontos constantes em seus últimos filmes, e neles pode se vislumbrar um certo convite para que o ser humano permita que a vida corra mais solta, mais desamarrada. Como no filme Medianeiras, cada um precisa cavar seu próprio buraco no muro que, à primeira vista, parece intransponível. O caminho certo? O filme mostra que eles não existem. Todos os encontros amorosos do filme são marcados pelo inusitado, pelo que carece de lógica: Boris e suas mulheres – a primeira que deixou porque eram muito parecidos nos valores, mas nem por isso havia paixão; Melody – música?- a adolescente que aparece por acaso em sua porta e por fim uma vidente que cai sobre ela quando pretende acabar com a vida; os amores dos pais de Melody,com histórias de vida marcadas por preceitos e preconceitos vivem questões surpreendentes para esses moldes: um amor a três e uma história homossexual. O inusitado pode acontecer, mesmo que não esteja prescrito. Talvez a melhor tradução para o filme seja: qualquer coisa pode funcionar... ou não! Olhando o percurso do cineasta, parece que Wood Allen nos envia uma mensagem interessante: Se a vida em si carece de sentido, isso, além de ter uma dose de humor, não nos impede, ou talvez mais que isso, nos impulsione a inventá-la, nos diz freudianamente esse ser que sempre se vê mancando – como Boris manca, apesar de se agarrar a suas pretensões de saber mais que os outros. Qualquer coisa pode dar certo, assim como pode dar errado. Talvez a nossa expectativa excessiva no previsível, nosso querer amarrar a vida em busca de certeza pré estabelecidas não nos leve muito longe e acabe por nos criar outros problemas. Suzana Braga – 29/5/2012