segunda-feira, 29 de outubro de 2012
escrever - texto retalhos
Escrevo em estado de graça, escrevo para retirar-me de mim mesmo. Nenhuma palavra alcança o mundo, eu sei. Ainda assim, escrevo. Escrevo porque amanhece, escrevo impelida por um impulso incontrolável, minha relação com as palavras é orgástica, o fato central da minha vida foi a existência das palavras e a possibilidade de tecê-las em poesia, porque tu sabes que é de poesia, minha vida secreta.Escrever é também, virar a alma pelo avesso, desaguando as ideias guardadas no nosso íntimo. Escrever é enfiar um dedo na garganta. Pode sair até uma flor. Meu jeito preferido de prece. Minha maneira predileta de levar o coração pra pegar sol. Eu sempre escrevo assim que alguma coisa precisa ser expressa e isso nunca, jamais é uma decisão minha. Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir. Escrevo porque a palavra provoca em mim o desassossego, afia os mil instrumentos da vida, não escrevo para agradar e nem desagradar...escrevo para desassossegar.Escrevo sem pensar, tudo o que o meu inconsciente grita, se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir, o melhor de tudo é o que penso e sinto, pelo menos posso escrever; senão, me asfixiaria completamente. para que escrever tantas sílabas de sal e terra, se nenhum grão de terra e sal responderá? Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever, essas palavras que escrevo me protegem da completa loucura. Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo.
( texto-retalhos - composto por frases de autores diversos)
terça-feira, 18 de setembro de 2012
epigrama
É justamente neste estreito limite do (im)possível que o amor continua a insistir, para tornar viável o meu viver.
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
De mãe mulher para mãe mulher
Era uma vez uma mulher
que desandou a sonhar:
“Quero um bebê/menina
para o feminino celebrar."
Como à princesa,
disseram as fadas madrinhas:
“Que ela seja forte,
mas cultive a criança.
Que seja livre e seja bela
como um passo de dança.”
“Que seja: IS(A) – ADORA”
Que ame a vida
que ame o amor.
E sinta alegria
p`ra se espalhar.
Mas, às vezes, tristeza
p`ra se encontrar.”
“Que em seu sonho,
nas artimanhas do tempo,
também tenha lugar:
para um bebê/menina
e a vida, de novo,
celebrar.”
“Que em seu regaço
haja vazio/ espaço
para ser possível amar,
gerar, acolher, afagar
e ao mundo entregar:
MANU-ELA” (para Isadora, minha princesa)
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
O tempo
Onde foram parar tantos momentos de alegria? Que restaram dos encontros, depois de tantos desencontros? Que restou do amor e das promessas? Pra onde vai o amor quando o amor se acaba? Pergunta o Chico. Haveria um lugar onde ficam guardados os sonhos partilhados? As ilusões perdidas? Ele torna a perguntar.
Se amor é inventado , que fique em cada um a possibilidade de reinventá-lo a sua maneira, a cada dia. Vem-me a memória a linda musica: Resposta ao tempo. Ou seja, para dar um jeito na crueldade do tempo, só o poeta:
Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho
Prá ter argumento
Mas fico sem jeito
Calado, ele ri
Ele zomba
Do quanto eu chorei
Porque sabe passar
E eu não sei
Num dia azul de verão
Sinto o vento
Há folhas no meu coração
É o tempo
Recordo um amor que perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei
E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos
Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto
E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Prá tentar reviver
No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer
terça-feira, 29 de maio de 2012
Qualquer coisa pode funcionar... ou não.
Whatever works – Tudo pode dar certo
O que parece pretender Wood Allen, esse eterno neurótico questionador da existência desde o início de sua carreira como cineasta, neste filme?Acho que as possíveis traduções de whatever seja uma boa forma de contribuir para a roda de prosa dessa noite. Assim como o termo: estranho do ensaio freudiano, os sentidos da expressão idiomática whatever mostram coisas que podem ser contrárias. A tradução para o português apaga essa ambigüidade tão importante no filme.
De acordo com Michaelis, dicionário ingles- portugues,podemos ver esses deslizamentosde sentido: Whatever-adj 1 qualquer, qualquer que, de qualquer tipo, seja qual for.
2 tudo o que, tudo quanto.
3 por mais que, não importa, o que quer que.
4 o que é que, que raios, que diabo.
5 de forma alguma, de nenhuma forma, absolutamente nenhum, sem nenhuma.
Voltemos ao filme:
Boris é um personagem que faz parte da linhagem da trilha de Wood Allen, que costumamos ver encarnados por ele mesmo em outros filmes. Alguém que questiona os valores, crenças e ilusões da humanidade, colocando o próprio eu em questionamento. Rimos do personagens e de nós mesmos. Também como em outros filmes, este é particularmente marcado por contradições, ambiguidades. Se por um lado Boris questiona as formas que considera sem requintes intelectuais,por outro lado sua sabedoria, seu QI de 200, quase ter ganhado o premio Nobel, não o livram de rituais protetores e supersticiosos, tais como, cantar “parabéns pra você” enquanto lava as mãos. Nem sua racionalidade o livra de acessos intempestivos de afetos que o levam, por exemplo, a saltar pela janela por duas vezes, quando é abandonado pela mulher, mesmo que a separação fosse previsível. Ou seja, o caminho da racionalidade, também não traz nenhuma garantia ao ser humano. Sou onde não penso, afirma a psicanálise a partir da hipótese do inconsciente.
Parece que a questão do acaso tem sido um dos pontos constantes em seus últimos filmes, e neles pode se vislumbrar um certo convite para que o ser humano permita que a vida corra mais solta, mais desamarrada. Como no filme Medianeiras, cada um precisa cavar seu próprio buraco no muro que, à primeira vista, parece intransponível. O caminho certo? O filme mostra que eles não existem.
Todos os encontros amorosos do filme são marcados pelo inusitado, pelo que carece de lógica: Boris e suas mulheres – a primeira que deixou porque eram muito parecidos nos valores, mas nem por isso havia paixão; Melody – música?- a adolescente que aparece por acaso em sua porta e por fim uma vidente que cai sobre ela quando pretende acabar com a vida;
os amores dos pais de Melody,com histórias de vida marcadas por preceitos e preconceitos vivem questões surpreendentes para esses moldes: um amor a três e uma história homossexual. O inusitado pode acontecer, mesmo que não esteja prescrito. Talvez a melhor tradução para o filme seja: qualquer coisa pode funcionar... ou não!
Olhando o percurso do cineasta, parece que Wood Allen nos envia uma mensagem interessante: Se a vida em si carece de sentido, isso, além de ter uma dose de humor, não nos impede, ou talvez mais que isso, nos impulsione a inventá-la, nos diz freudianamente esse ser que sempre se vê mancando – como Boris manca, apesar de se agarrar a suas pretensões de saber mais que os outros. Qualquer coisa pode dar certo, assim como pode dar errado. Talvez a nossa expectativa excessiva no previsível, nosso querer amarrar a vida em busca de certeza pré estabelecidas não nos leve muito longe e acabe por nos criar outros problemas.
Suzana Braga – 29/5/2012
quinta-feira, 1 de março de 2012
Transitoriedade
À mesa, flores de Teresa
Odores, cores de Van Gogh
Efêmera beleza da existência
(hai-kai - eco do poema do Wladimir)
Odores, cores de Van Gogh
Efêmera beleza da existência
(hai-kai - eco do poema do Wladimir)
Flores do serrado
Esta manhã havia flores no vaso sobre a mesa
que Teresa apanhara em nosso sítio.
Não eram girassóis de Van Gogh,
mas, de um alaranjado
tão intenso e grande,
capazes de sustentar toda uma vida,
incandescentes,
na provisoriedade dos cheiros e tons das corolas,
essa lembrança ancestral.
Wladimir dos Santos (fevereiro de 2012)
que Teresa apanhara em nosso sítio.
Não eram girassóis de Van Gogh,
mas, de um alaranjado
tão intenso e grande,
capazes de sustentar toda uma vida,
incandescentes,
na provisoriedade dos cheiros e tons das corolas,
essa lembrança ancestral.
Wladimir dos Santos (fevereiro de 2012)
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