quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O tempo

Onde foram parar tantos momentos de alegria? Que restaram dos encontros, depois de tantos desencontros? Que restou do amor e das promessas? Pra onde vai o amor quando o amor se acaba? Pergunta o Chico. Haveria um lugar onde ficam guardados os sonhos partilhados? As ilusões perdidas? Ele torna a perguntar. Se amor é inventado , que fique em cada um a possibilidade de reinventá-lo a sua maneira, a cada dia. Vem-me a memória a linda musica: Resposta ao tempo. Ou seja, para dar um jeito na crueldade do tempo, só o poeta: Batidas na porta da frente É o tempo Eu bebo um pouquinho Prá ter argumento Mas fico sem jeito Calado, ele ri Ele zomba Do quanto eu chorei Porque sabe passar E eu não sei Num dia azul de verão Sinto o vento Há folhas no meu coração É o tempo Recordo um amor que perdi Ele ri Diz que somos iguais Se eu notei Pois não sabe ficar E eu também não sei E gira em volta de mim Sussurra que apaga os caminhos Que amores terminam no escuro Sozinhos Respondo que ele aprisiona Eu liberto Que ele adormece as paixões Eu desperto E o tempo se rói Com inveja de mim Me vigia querendo aprender Como eu morro de amor Prá tentar reviver No fundo é uma eterna criança Que não soube amadurecer Eu posso, ele não vai poder Me esquecer

terça-feira, 29 de maio de 2012

Qualquer coisa pode funcionar... ou não.

Whatever works – Tudo pode dar certo O que parece pretender Wood Allen, esse eterno neurótico questionador da existência desde o início de sua carreira como cineasta, neste filme?Acho que as possíveis traduções de whatever seja uma boa forma de contribuir para a roda de prosa dessa noite. Assim como o termo: estranho do ensaio freudiano, os sentidos da expressão idiomática whatever mostram coisas que podem ser contrárias. A tradução para o português apaga essa ambigüidade tão importante no filme. De acordo com Michaelis, dicionário ingles- portugues,podemos ver esses deslizamentosde sentido: Whatever-adj 1 qualquer, qualquer que, de qualquer tipo, seja qual for. 2 tudo o que, tudo quanto. 3 por mais que, não importa, o que quer que. 4 o que é que, que raios, que diabo. 5 de forma alguma, de nenhuma forma, absolutamente nenhum, sem nenhuma. Voltemos ao filme: Boris é um personagem que faz parte da linhagem da trilha de Wood Allen, que costumamos ver encarnados por ele mesmo em outros filmes. Alguém que questiona os valores, crenças e ilusões da humanidade, colocando o próprio eu em questionamento. Rimos do personagens e de nós mesmos. Também como em outros filmes, este é particularmente marcado por contradições, ambiguidades. Se por um lado Boris questiona as formas que considera sem requintes intelectuais,por outro lado sua sabedoria, seu QI de 200, quase ter ganhado o premio Nobel, não o livram de rituais protetores e supersticiosos, tais como, cantar “parabéns pra você” enquanto lava as mãos. Nem sua racionalidade o livra de acessos intempestivos de afetos que o levam, por exemplo, a saltar pela janela por duas vezes, quando é abandonado pela mulher, mesmo que a separação fosse previsível. Ou seja, o caminho da racionalidade, também não traz nenhuma garantia ao ser humano. Sou onde não penso, afirma a psicanálise a partir da hipótese do inconsciente. Parece que a questão do acaso tem sido um dos pontos constantes em seus últimos filmes, e neles pode se vislumbrar um certo convite para que o ser humano permita que a vida corra mais solta, mais desamarrada. Como no filme Medianeiras, cada um precisa cavar seu próprio buraco no muro que, à primeira vista, parece intransponível. O caminho certo? O filme mostra que eles não existem. Todos os encontros amorosos do filme são marcados pelo inusitado, pelo que carece de lógica: Boris e suas mulheres – a primeira que deixou porque eram muito parecidos nos valores, mas nem por isso havia paixão; Melody – música?- a adolescente que aparece por acaso em sua porta e por fim uma vidente que cai sobre ela quando pretende acabar com a vida; os amores dos pais de Melody,com histórias de vida marcadas por preceitos e preconceitos vivem questões surpreendentes para esses moldes: um amor a três e uma história homossexual. O inusitado pode acontecer, mesmo que não esteja prescrito. Talvez a melhor tradução para o filme seja: qualquer coisa pode funcionar... ou não! Olhando o percurso do cineasta, parece que Wood Allen nos envia uma mensagem interessante: Se a vida em si carece de sentido, isso, além de ter uma dose de humor, não nos impede, ou talvez mais que isso, nos impulsione a inventá-la, nos diz freudianamente esse ser que sempre se vê mancando – como Boris manca, apesar de se agarrar a suas pretensões de saber mais que os outros. Qualquer coisa pode dar certo, assim como pode dar errado. Talvez a nossa expectativa excessiva no previsível, nosso querer amarrar a vida em busca de certeza pré estabelecidas não nos leve muito longe e acabe por nos criar outros problemas. Suzana Braga – 29/5/2012

quinta-feira, 1 de março de 2012

Transitoriedade

À mesa, flores de Teresa
Odores, cores de Van Gogh
Efêmera beleza da existência


(hai-kai - eco do poema do Wladimir)

Flores do serrado

Esta manhã havia flores no vaso sobre a mesa
que Teresa apanhara em nosso sítio.
Não eram girassóis de Van Gogh,
mas, de um alaranjado
tão intenso e grande,
capazes de sustentar toda uma vida,
incandescentes,
na provisoriedade dos cheiros e tons das corolas,
essa lembrança ancestral.




Wladimir dos Santos (fevereiro de 2012)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

o silêncio e as palavras

O silêncio pode dizer mais que as palavras. Parece ser este um dos recados do filme O Artista, candidato a alguns oscars, entre eles o de melhor filme. Diante de tanta tecnologia e de orçamentos caríssimos, temos a surpresa de assistir a um filme mudo, com enredo simples nos mostrando como as imagens falam e nos alerta para o excesso de estímulos em que estamos mergulhados, que podem até mesmo empobrecer a nossa percepção. O filme parece nos convidar a ouvir o silêncio, pois ele é cheio de possibilidades.

monteiro lobato e isadora

este texto é da minha querida filha.

Monteiro Lobato
Eu era a Narizinho, mas gostava mesmo era da Emília. Eu era menina, de cabelos pretos e tinha o tal narizinho arrebitado. Não morava no sítio, não tinha aquela delícia de vovó, não comia os quitutes da Nastácia, mas tinha muita imaginação e incorporava as histórias de Narizinho. Mas eu gostava mesmo era da Emília. Como eu queria uma boneca que tagarelou a falar. E queria os ímpetos malvados da boneca. Emília não levava desaforo para casa. Eu também queria ter nascido de uma caixa de costura, de pano, linha e agulha, e ser a boneca gente.
Monteiro Lobato apareceu na minha vida como um nome numa coleção de livros na estante. A minha casa sempre teve muitos livros e meus pais liam e lêem bastante. Minha mãe me contava as histórias dos livros e meu pai - jornalista - contava histórias da vida. Não sei ao certo como tudo aconteceu, mas sei que foi de forma natural. Hoje sou jornalista, com mestrado em Letras e sei que isso está relacionado à minha história.
A minha filha também tem o narizinho arrebitado - marca da família. A nossa casa está cheia de livros e histórias. Nessa era de internet não dá para saber como será a relação delas com tudo isso, mas desejo que ela tenha as suas reinações. Não sei se com sabugos de milho, porcos, grilos e peixes que falam e enriquecem a vida. Mas espero que faça sentido a minha música preferida da infância. Narizinho, narizinho arrebitado, de olho curioso, de ouvido xereta, e no meio da boca tem um sorriso feliz.

PS - Tenho ou não motivos pra ser mãe coruja? suzana

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

off-price

Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora do esquema
meu poema
inesperado


e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado
(Ferreira Goulart)