quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
o silêncio e as palavras
O silêncio pode dizer mais que as palavras. Parece ser este um dos recados do filme O Artista, candidato a alguns oscars, entre eles o de melhor filme. Diante de tanta tecnologia e de orçamentos caríssimos, temos a surpresa de assistir a um filme mudo, com enredo simples nos mostrando como as imagens falam e nos alerta para o excesso de estímulos em que estamos mergulhados, que podem até mesmo empobrecer a nossa percepção. O filme parece nos convidar a ouvir o silêncio, pois ele é cheio de possibilidades.
monteiro lobato e isadora
este texto é da minha querida filha.
Monteiro Lobato
Eu era a Narizinho, mas gostava mesmo era da Emília. Eu era menina, de cabelos pretos e tinha o tal narizinho arrebitado. Não morava no sítio, não tinha aquela delícia de vovó, não comia os quitutes da Nastácia, mas tinha muita imaginação e incorporava as histórias de Narizinho. Mas eu gostava mesmo era da Emília. Como eu queria uma boneca que tagarelou a falar. E queria os ímpetos malvados da boneca. Emília não levava desaforo para casa. Eu também queria ter nascido de uma caixa de costura, de pano, linha e agulha, e ser a boneca gente.
Monteiro Lobato apareceu na minha vida como um nome numa coleção de livros na estante. A minha casa sempre teve muitos livros e meus pais liam e lêem bastante. Minha mãe me contava as histórias dos livros e meu pai - jornalista - contava histórias da vida. Não sei ao certo como tudo aconteceu, mas sei que foi de forma natural. Hoje sou jornalista, com mestrado em Letras e sei que isso está relacionado à minha história.
A minha filha também tem o narizinho arrebitado - marca da família. A nossa casa está cheia de livros e histórias. Nessa era de internet não dá para saber como será a relação delas com tudo isso, mas desejo que ela tenha as suas reinações. Não sei se com sabugos de milho, porcos, grilos e peixes que falam e enriquecem a vida. Mas espero que faça sentido a minha música preferida da infância. Narizinho, narizinho arrebitado, de olho curioso, de ouvido xereta, e no meio da boca tem um sorriso feliz.
PS - Tenho ou não motivos pra ser mãe coruja? suzana
Monteiro Lobato
Eu era a Narizinho, mas gostava mesmo era da Emília. Eu era menina, de cabelos pretos e tinha o tal narizinho arrebitado. Não morava no sítio, não tinha aquela delícia de vovó, não comia os quitutes da Nastácia, mas tinha muita imaginação e incorporava as histórias de Narizinho. Mas eu gostava mesmo era da Emília. Como eu queria uma boneca que tagarelou a falar. E queria os ímpetos malvados da boneca. Emília não levava desaforo para casa. Eu também queria ter nascido de uma caixa de costura, de pano, linha e agulha, e ser a boneca gente.
Monteiro Lobato apareceu na minha vida como um nome numa coleção de livros na estante. A minha casa sempre teve muitos livros e meus pais liam e lêem bastante. Minha mãe me contava as histórias dos livros e meu pai - jornalista - contava histórias da vida. Não sei ao certo como tudo aconteceu, mas sei que foi de forma natural. Hoje sou jornalista, com mestrado em Letras e sei que isso está relacionado à minha história.
A minha filha também tem o narizinho arrebitado - marca da família. A nossa casa está cheia de livros e histórias. Nessa era de internet não dá para saber como será a relação delas com tudo isso, mas desejo que ela tenha as suas reinações. Não sei se com sabugos de milho, porcos, grilos e peixes que falam e enriquecem a vida. Mas espero que faça sentido a minha música preferida da infância. Narizinho, narizinho arrebitado, de olho curioso, de ouvido xereta, e no meio da boca tem um sorriso feliz.
PS - Tenho ou não motivos pra ser mãe coruja? suzana
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
off-price
Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora do esquema
meu poema
inesperado
e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado
(Ferreira Goulart)
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora do esquema
meu poema
inesperado
e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado
(Ferreira Goulart)
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Grande desafio
"Dê a quem você ama:
Asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar"
Dalai Lama
Asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar"
Dalai Lama
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Precisão
Para o poema preciso
Preciso do poema de seus olhos,
Preciso de seus olhos para o meu poema.
Impreciso, paira nos seus olhos um poema.
Perco-me na imensidão dos seus olhos
Adivinho neles precioso poema.
Mergulho no lago dos seus olhos
E pesco um poema.
Seria o poema, o nosso?
Preciso do poema de seus olhos,
Preciso de seus olhos para o meu poema.
Impreciso, paira nos seus olhos um poema.
Perco-me na imensidão dos seus olhos
Adivinho neles precioso poema.
Mergulho no lago dos seus olhos
E pesco um poema.
Seria o poema, o nosso?
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Adelia
Com um ramo de buganvílias brancas na mão e o coração aos pulos, ia ao encontro do poeta. Não sabia como chegar, o que dizer, como se fazer presente. Entre a santa e a puta, vislumbrava a mulher, aquela que ela procurava pela vida afora.
Era para aquele escritor que havia pedido licença poética, dialogando com ele no poema que escolhera para abrir seu primeiro livro. Só que no lugar do anjo torto, ela preferira um esbelto e ainda tocando trombeta! Afinal, o erótico, principalmente quando tingido com as tintas do místico, tinha um sabor especial, sempre presente em seus poemas. Era em sexo, morte e Deus que ela pensava todo dia. Seu misticismo era uma forma de vivenciar o que escrevera: erótico é a alma. Se o poeta, considerado o maior, nomeava-se gauche e achava que a vida não tinha solução, nem se seu nome fosse Raimundo; ela, mais barulhenta, gostava de carregar bandeira, fundar linhagens e criar reinos. Fazia pose de mulher poderosa e ora sim, ora não acreditava em parto sem dor. Mas esse entusiasmo não a protegia de suas dores: o amor, as perdas, o envelhecimento. A poesia, às vezes roda dentada e outras sua suposta salvação, era um jeito de viver a paixão, de fazer um apelo diante do desassossego de seu amor a Deus.
Amava aquele poeta como se ele fosse um dos ladrões que ficaram ao lado do Cristo crucificado. Já havia escrito que desejava ter alguns amantes e ele fazia parte de sua lista, uma vez que considerava algumas infidelidades absolutamente essenciais. O Zé tinha uma paciência incansável, não podia viver sem ele. Quem, além dele, agüentaria as suas estridências? Só a seu lado poderia ficar mais singela. E entre os amantes, um deveria ser padre, para poder falar do seu amor por Jesus, filho de Deus que, feito homem, tinha um belo par de pernas. E o poeta, o que queria dele? Falava pouco - nisto se parecia com o Zé - mas sua escrita tocava a alma da mesma forma que os textos bíblicos, leitura interminável, com eternas verdades por revelar. Como o poeta, ela vivia em busca da palavra, aquela que estaria antes do nome, disfarce de coisa mais grave, surda muda. E em alguns momentos de graça, infrequentíssimos, podia apanhá-la com a mão: um peixe vivo. Puro susto e terror.
Ela, que achava o Rio de Janeiro uma beleza, seguia pela avenida em frente à praia de Copacabana. Quase chegando em Ipanema, deparou com ele, sentado num banco, lendo um livro. Seus óculos estavam mal alinhados, devido aos atos de vandalismo. Magro, miúdo, cabeça baixa, primeiro quis convidá-lo para virar-se e olhar o mar. Mas, pensou: não. Ele tinha escolhido o livro. Sua vida se fez pela escrita. Consertou-lhe os óculos para que pudesse ler melhor, deixou o ramo de buganvílias brancas a seu lado e partiu. Teve medo de olhar pra trás, pois, por um momento, acreditou que o poeta havia guardado seu presente.
Era para aquele escritor que havia pedido licença poética, dialogando com ele no poema que escolhera para abrir seu primeiro livro. Só que no lugar do anjo torto, ela preferira um esbelto e ainda tocando trombeta! Afinal, o erótico, principalmente quando tingido com as tintas do místico, tinha um sabor especial, sempre presente em seus poemas. Era em sexo, morte e Deus que ela pensava todo dia. Seu misticismo era uma forma de vivenciar o que escrevera: erótico é a alma. Se o poeta, considerado o maior, nomeava-se gauche e achava que a vida não tinha solução, nem se seu nome fosse Raimundo; ela, mais barulhenta, gostava de carregar bandeira, fundar linhagens e criar reinos. Fazia pose de mulher poderosa e ora sim, ora não acreditava em parto sem dor. Mas esse entusiasmo não a protegia de suas dores: o amor, as perdas, o envelhecimento. A poesia, às vezes roda dentada e outras sua suposta salvação, era um jeito de viver a paixão, de fazer um apelo diante do desassossego de seu amor a Deus.
Amava aquele poeta como se ele fosse um dos ladrões que ficaram ao lado do Cristo crucificado. Já havia escrito que desejava ter alguns amantes e ele fazia parte de sua lista, uma vez que considerava algumas infidelidades absolutamente essenciais. O Zé tinha uma paciência incansável, não podia viver sem ele. Quem, além dele, agüentaria as suas estridências? Só a seu lado poderia ficar mais singela. E entre os amantes, um deveria ser padre, para poder falar do seu amor por Jesus, filho de Deus que, feito homem, tinha um belo par de pernas. E o poeta, o que queria dele? Falava pouco - nisto se parecia com o Zé - mas sua escrita tocava a alma da mesma forma que os textos bíblicos, leitura interminável, com eternas verdades por revelar. Como o poeta, ela vivia em busca da palavra, aquela que estaria antes do nome, disfarce de coisa mais grave, surda muda. E em alguns momentos de graça, infrequentíssimos, podia apanhá-la com a mão: um peixe vivo. Puro susto e terror.
Ela, que achava o Rio de Janeiro uma beleza, seguia pela avenida em frente à praia de Copacabana. Quase chegando em Ipanema, deparou com ele, sentado num banco, lendo um livro. Seus óculos estavam mal alinhados, devido aos atos de vandalismo. Magro, miúdo, cabeça baixa, primeiro quis convidá-lo para virar-se e olhar o mar. Mas, pensou: não. Ele tinha escolhido o livro. Sua vida se fez pela escrita. Consertou-lhe os óculos para que pudesse ler melhor, deixou o ramo de buganvílias brancas a seu lado e partiu. Teve medo de olhar pra trás, pois, por um momento, acreditou que o poeta havia guardado seu presente.
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