terça-feira, 10 de maio de 2011

subvertendo o dicionário

Poesia – palavra cantante que anda por caminhos di-versos.
Saudades - ressonâncias que cutucam vazios.
Tristeza – 1 - mergulho na dor de existir.
Tristeza – 2 - escuridão necessária pra se ver a luz do dia.
Alegria – momento em que só o agora tem importância.
Presente – jeito de estar na vida dos outros.
Fantasia – modo de vestir o mundo com outras cores.
Netos – aqueles que acordam a criança que mora em nós.
Viagem – saída para descobrirmos outros eus.
Lar - lugar que acolhe os meus retornos.
Amigo – bálsamo para as asperezas da vida.
Nostalgia – saudade do não vivido.
Palavra – mala precária pra envolver a intensidade da existência.
Psicanálise – possibilidade de reinventar-se.
Humor – magia que torna gostosos os dissabores.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Ah, meu gato

No meu edredon,
meu gato faz ron-ron.
Sem juízo, passeia
pela minha teia
E me deixa
no país das maravilhas.

Na cozinha

Maria e José ficavam horas na cozinha. Embora nada entendesse de culinária, era José quem acendia o fogão a lenha. Essa sim, era sua especialidade. E Maria, ah, Maria gostava daquela arte! O fogo ardia e o caldo, preparado bem devagar, ficava saboroso. Entre uma mexida e outra na panela, às vezes trocavam passos de dança, ao som da voz de Vinícius, que vinha da sala: “ao sol que arde em Itapuã”. Os dois sorviam satisfeitos aquela delícia preparada com jeito. Lá fora, o canteiro de beijos plantado por José era testemunha daquele amor caseiro. Só deles dois.

terça-feira, 3 de maio de 2011

A sede de Aqueronte

À noite, quando criança,
No meio do sono, acordava, palpitante.
Aqueronte, o rio carente de auroras,
insistia em cantar em seu ouvido.
A melodia era doce, um chamado.
Que era aquele mistério?
Corria, pulava no mar, para ouvir o canto da sereia.
Quem sabe o segredo estaria lá?
Acolhia os bichos abandonados,
Cuidava deles, acariciava-os,
para vê-los morrer depois.
Estrangulado pelas suas mãos,
tomadas pelo fascínio.
Destemido da vida, avançava, desafiando seus limites.
Onde estava a fronteira?
Navegava no barco de Caronte,
mas não via a cara da verdade.
E se deitava no leito das mulheres
Em busca de um gozo que era vida e morte.
E se embriagava , inebriado por uma ânsia de tudo ter.
Mas algo escorria, escapava dos seus dedos,
E Aqueronte renovava seu chamado.
No meio de Eros, lá estava seu sussurro.
Dançava em sua frente, na nudez das mulheres,
E dava uma piscadela, no afeto pelos amigos,
Na revolta contra a injustiça.
E em sua ânsia de desvendar os mistérios da natureza,
De seu corpo, tão jovem,tão belo.
De amores por conhecer.
Apressado, aprisionado, desassossegado,
queria a plenitude do tudo-saber.
Nada se comparava à volúpia de Tânatos.
Seria doce ser beijado por ela?
Um dia, decidido,
fez o movimento fatal.
Ouviu-se um estampido
e mais nada.
Lá se foi.
Condenando-nos
À falta de resposta.
Condição de nossa existência.

terça-feira, 29 de março de 2011

Alice e o gato

Perdida,
Alice encontra o gato
Que não mostra o caminho
Não lhe devolve o ninho.
Caída,
No mundo do avesso
O gato apenas
aponta seu desejo.
Na vida, nos resta
(pro) seguir.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Cacos e mosaicos

“Não há caminhos, os caminhos se fazem ao caminhar.” Pensava nessa frase enquanto andava pelos arredores. Olhava pra trás e se surpreendia com tantas mudanças em sua vida.
É mais ou menos como uma fila de dominós, uma vez que cai o primeiro, lá vão os outros, mesmo aqueles que se pensava tão no lugar.O que havia perdido? Com o que ainda permanecia?
Constatou a fragilidade do que é chamado de eu, como essa coisinha se ancora em pequenos traços, e, modificada a paisagem, fica-se a perguntar quem se é. Pra onde foi a tal identidade? Idêntico a que? Uma vez cavado o buraco, caído o primeiro dominó, caem as certezas. A vida, tão previsível, subitamente se desfaz. E ela acreditava que seria pra sempre!?...
Olhando pra trás, podia ver que na verdade não era bem assim. Parece que inventamos a teoria de que está tudo intacto. Somos cegos às mudanças que ocorrem bem na frente de nossos olhos, desconsideramos até as marcas que o tempo escreve em nosso rosto. Um dia o espelho do outro nos diz que era tudo ilusão.
Cata os cacos e com eles há mosaicos a construir. Quanto trabalho pela frente!O desfeito convida a refazer de um outro modo. Vê-se tomada de um novo entusiasmo que renova as energias. Seu olhar mudou, para si mesma e para o mundo. Na medida em que ganha novas cores, a paisagem também se torna mais colorida. O amor ganha novas feições.
Lembra-se: Está chegando o meu aniversário. O dia é de comemorar, pois o viver tem novos paladares. Que bom experimentar! Vida-morte, morte-vida.

quarta-feira, 2 de março de 2011

sonho de criança

Desde criança a imagem do homem aranha o encantara. Era o seu grande herói que se escondia sob a identidade do tímido jornalista Peter Parker. De tanto pensar, de tanto querer o homem aranha, uma idéia começou a fermentar em sua cabeça: E se acontecesse algo desastroso que resultasse numa mutação sua? Afinal, seu herói surgiu ao acaso, a partir da picada de uma aranha submetida aos efeitos de radiação.
E se tivesse uma sorte parecida? Se era tão tímido quanto Parker, porque não seria também submetido aos mesmos avatares?
Procurou uma aranha, daquelas grandonas, de pelo aveludado. Entrou no laboratório de ciências do colégio, colocou-a no peito e esperou.
Pra sua alegria, chegara sua hora, disse pra si mesmo.
E saltou da janela. Tinha virado um anjo.