terça-feira, 29 de março de 2011

Alice e o gato

Perdida,
Alice encontra o gato
Que não mostra o caminho
Não lhe devolve o ninho.
Caída,
No mundo do avesso
O gato apenas
aponta seu desejo.
Na vida, nos resta
(pro) seguir.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Cacos e mosaicos

“Não há caminhos, os caminhos se fazem ao caminhar.” Pensava nessa frase enquanto andava pelos arredores. Olhava pra trás e se surpreendia com tantas mudanças em sua vida.
É mais ou menos como uma fila de dominós, uma vez que cai o primeiro, lá vão os outros, mesmo aqueles que se pensava tão no lugar.O que havia perdido? Com o que ainda permanecia?
Constatou a fragilidade do que é chamado de eu, como essa coisinha se ancora em pequenos traços, e, modificada a paisagem, fica-se a perguntar quem se é. Pra onde foi a tal identidade? Idêntico a que? Uma vez cavado o buraco, caído o primeiro dominó, caem as certezas. A vida, tão previsível, subitamente se desfaz. E ela acreditava que seria pra sempre!?...
Olhando pra trás, podia ver que na verdade não era bem assim. Parece que inventamos a teoria de que está tudo intacto. Somos cegos às mudanças que ocorrem bem na frente de nossos olhos, desconsideramos até as marcas que o tempo escreve em nosso rosto. Um dia o espelho do outro nos diz que era tudo ilusão.
Cata os cacos e com eles há mosaicos a construir. Quanto trabalho pela frente!O desfeito convida a refazer de um outro modo. Vê-se tomada de um novo entusiasmo que renova as energias. Seu olhar mudou, para si mesma e para o mundo. Na medida em que ganha novas cores, a paisagem também se torna mais colorida. O amor ganha novas feições.
Lembra-se: Está chegando o meu aniversário. O dia é de comemorar, pois o viver tem novos paladares. Que bom experimentar! Vida-morte, morte-vida.

quarta-feira, 2 de março de 2011

sonho de criança

Desde criança a imagem do homem aranha o encantara. Era o seu grande herói que se escondia sob a identidade do tímido jornalista Peter Parker. De tanto pensar, de tanto querer o homem aranha, uma idéia começou a fermentar em sua cabeça: E se acontecesse algo desastroso que resultasse numa mutação sua? Afinal, seu herói surgiu ao acaso, a partir da picada de uma aranha submetida aos efeitos de radiação.
E se tivesse uma sorte parecida? Se era tão tímido quanto Parker, porque não seria também submetido aos mesmos avatares?
Procurou uma aranha, daquelas grandonas, de pelo aveludado. Entrou no laboratório de ciências do colégio, colocou-a no peito e esperou.
Pra sua alegria, chegara sua hora, disse pra si mesmo.
E saltou da janela. Tinha virado um anjo.

Com Ferreira Goulart...

"Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba."

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Arroz e familia

Familia é um prato dificil de preparar. Com esta frase o escritor, romancista estreante, Francisco Azevedo costura seu romance: O Arroz de Palma. A trama é de uma simplicidade capaz de tornar cada leitor um coadjuvante do romance. Mas essa simplicidade é ao mesmo tempo tingida de tal delicadeza que nos deixa comovidos desde que tomamos o livro nas mãos, até terminá-lo com pesar, querendo mais um pouquinho. Quem, independente da idade e da circunstância singular, ainda não se questionou sobre a propria família, o lugar de cada um, os mitos que constroem cada romance familiar? Não sei o que os críticos literários têm dito sobre este livro, tão simples e tão palatável, diante das circunvoluções e ou das asperezas da literatura contemporânea. É um romance fora do tempo, ou, como diz o narrador, um tempo qualquer- mistério da terreníssima trindade- passado, presente e futuro, tres pessoas distintas, reunidas numa só.

lixo extra-ordinário

O que fazer com os restos? Tanto no sentido social como no sentido pessoal, eles podem ter caminhos diversos: viram entulho e ficam ali, sufocando a vida da gente, entupindo as cidades. Viram lixo que tenta-se jogar fora, para se ver livre. Mas acaba que o mal-cheiro persiste, pedindo uma solução. Os lixões das cidades mostram o resultado desta mera transferência do que é indesejável de um lugar pra outro: o problema continua a clamar por um encaminhamento, continua causando problemas.
Mas os restos podem ser reciclados, resignificados e virarem outra coisa. Podem ser transformados em matéria prima nas reciclagens e podem até tornarem-se obras de arte.
Um exemplo incrível disso é o documentário Lixo Extraordinário, dirigido pelo brasileiro João Jardim e a inglesa Karen Harley. O filme é candidato ao Oscar de melhor documentário do ano. Tem-se a emoção de assistir, mais que isso, de ser tomado pela beleza da sensibilidade do artista de transformar o lixo em obra de arte. O documentário acompanha o trabalho do mundialmente reconhecido artista brasileiro Vik Muniz que decide retornar ao estado do Rio de Janeiro, sua cidade natal e contribuir para transformar a vida das pessoas envolvidas com o lixão de Gramacho, localizado em Duque de Caxias e considerado o maior aterro sanitário do mundo.
Num trabalho de pesquisa-ação, Vik Muniz envolve-se com as pessoas que vivem no e do lixo e junto com elas constrói obras de arte, a partir da vida delas e tendo o lixo como matéria prima. Esta interação permite que essas pessoas saiam do lugar passivo de vítimas da pobreza e do lixo, para o papel de protagonistas de uma obra de arte e que resulta numa transformação na vida delas. Vik Muniz, num trabalho de construção, transforma junto com elas aquilo que era ordinário, no sentido pejorativo da palavra, em algo extra, que vai além, muito além.
Parece um pouco com o trabalho analítico, que também visa dar um giro e permitir que o analisante possa transformar, reposicionar-se diante daquilo que constitui o seu fantasma, a pedra do seu sapato, em outra coisa. O ato criador e o ato analítico tem este traço em comum, como diria Lacan, fazem do lixo, um luxo
Tomara que o mundo hollywoodiano reconheça este trabalho. Mas, se não reconhecer, algo já foi colocado em movimento. Não há mais volta. Também é assim o trabalho na psicanálise

quarta-feira, 3 de novembro de 2010