Para o poema preciso
Preciso do poema de seus olhos,
Preciso de seus olhos para o meu poema.
Impreciso, paira nos seus olhos um poema.
Perco-me na imensidão dos seus olhos
Adivinho neles precioso poema.
Mergulho no lago dos seus olhos
E pesco um poema.
Seria o poema, o nosso?
terça-feira, 29 de novembro de 2011
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Adelia
Com um ramo de buganvílias brancas na mão e o coração aos pulos, ia ao encontro do poeta. Não sabia como chegar, o que dizer, como se fazer presente. Entre a santa e a puta, vislumbrava a mulher, aquela que ela procurava pela vida afora.
Era para aquele escritor que havia pedido licença poética, dialogando com ele no poema que escolhera para abrir seu primeiro livro. Só que no lugar do anjo torto, ela preferira um esbelto e ainda tocando trombeta! Afinal, o erótico, principalmente quando tingido com as tintas do místico, tinha um sabor especial, sempre presente em seus poemas. Era em sexo, morte e Deus que ela pensava todo dia. Seu misticismo era uma forma de vivenciar o que escrevera: erótico é a alma. Se o poeta, considerado o maior, nomeava-se gauche e achava que a vida não tinha solução, nem se seu nome fosse Raimundo; ela, mais barulhenta, gostava de carregar bandeira, fundar linhagens e criar reinos. Fazia pose de mulher poderosa e ora sim, ora não acreditava em parto sem dor. Mas esse entusiasmo não a protegia de suas dores: o amor, as perdas, o envelhecimento. A poesia, às vezes roda dentada e outras sua suposta salvação, era um jeito de viver a paixão, de fazer um apelo diante do desassossego de seu amor a Deus.
Amava aquele poeta como se ele fosse um dos ladrões que ficaram ao lado do Cristo crucificado. Já havia escrito que desejava ter alguns amantes e ele fazia parte de sua lista, uma vez que considerava algumas infidelidades absolutamente essenciais. O Zé tinha uma paciência incansável, não podia viver sem ele. Quem, além dele, agüentaria as suas estridências? Só a seu lado poderia ficar mais singela. E entre os amantes, um deveria ser padre, para poder falar do seu amor por Jesus, filho de Deus que, feito homem, tinha um belo par de pernas. E o poeta, o que queria dele? Falava pouco - nisto se parecia com o Zé - mas sua escrita tocava a alma da mesma forma que os textos bíblicos, leitura interminável, com eternas verdades por revelar. Como o poeta, ela vivia em busca da palavra, aquela que estaria antes do nome, disfarce de coisa mais grave, surda muda. E em alguns momentos de graça, infrequentíssimos, podia apanhá-la com a mão: um peixe vivo. Puro susto e terror.
Ela, que achava o Rio de Janeiro uma beleza, seguia pela avenida em frente à praia de Copacabana. Quase chegando em Ipanema, deparou com ele, sentado num banco, lendo um livro. Seus óculos estavam mal alinhados, devido aos atos de vandalismo. Magro, miúdo, cabeça baixa, primeiro quis convidá-lo para virar-se e olhar o mar. Mas, pensou: não. Ele tinha escolhido o livro. Sua vida se fez pela escrita. Consertou-lhe os óculos para que pudesse ler melhor, deixou o ramo de buganvílias brancas a seu lado e partiu. Teve medo de olhar pra trás, pois, por um momento, acreditou que o poeta havia guardado seu presente.
Era para aquele escritor que havia pedido licença poética, dialogando com ele no poema que escolhera para abrir seu primeiro livro. Só que no lugar do anjo torto, ela preferira um esbelto e ainda tocando trombeta! Afinal, o erótico, principalmente quando tingido com as tintas do místico, tinha um sabor especial, sempre presente em seus poemas. Era em sexo, morte e Deus que ela pensava todo dia. Seu misticismo era uma forma de vivenciar o que escrevera: erótico é a alma. Se o poeta, considerado o maior, nomeava-se gauche e achava que a vida não tinha solução, nem se seu nome fosse Raimundo; ela, mais barulhenta, gostava de carregar bandeira, fundar linhagens e criar reinos. Fazia pose de mulher poderosa e ora sim, ora não acreditava em parto sem dor. Mas esse entusiasmo não a protegia de suas dores: o amor, as perdas, o envelhecimento. A poesia, às vezes roda dentada e outras sua suposta salvação, era um jeito de viver a paixão, de fazer um apelo diante do desassossego de seu amor a Deus.
Amava aquele poeta como se ele fosse um dos ladrões que ficaram ao lado do Cristo crucificado. Já havia escrito que desejava ter alguns amantes e ele fazia parte de sua lista, uma vez que considerava algumas infidelidades absolutamente essenciais. O Zé tinha uma paciência incansável, não podia viver sem ele. Quem, além dele, agüentaria as suas estridências? Só a seu lado poderia ficar mais singela. E entre os amantes, um deveria ser padre, para poder falar do seu amor por Jesus, filho de Deus que, feito homem, tinha um belo par de pernas. E o poeta, o que queria dele? Falava pouco - nisto se parecia com o Zé - mas sua escrita tocava a alma da mesma forma que os textos bíblicos, leitura interminável, com eternas verdades por revelar. Como o poeta, ela vivia em busca da palavra, aquela que estaria antes do nome, disfarce de coisa mais grave, surda muda. E em alguns momentos de graça, infrequentíssimos, podia apanhá-la com a mão: um peixe vivo. Puro susto e terror.
Ela, que achava o Rio de Janeiro uma beleza, seguia pela avenida em frente à praia de Copacabana. Quase chegando em Ipanema, deparou com ele, sentado num banco, lendo um livro. Seus óculos estavam mal alinhados, devido aos atos de vandalismo. Magro, miúdo, cabeça baixa, primeiro quis convidá-lo para virar-se e olhar o mar. Mas, pensou: não. Ele tinha escolhido o livro. Sua vida se fez pela escrita. Consertou-lhe os óculos para que pudesse ler melhor, deixou o ramo de buganvílias brancas a seu lado e partiu. Teve medo de olhar pra trás, pois, por um momento, acreditou que o poeta havia guardado seu presente.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
meu pai
Meu pai era assim:
Menino grande
riso fácil,
Brincava com o diário.
Seria frágil?
Meu pai era assim:
Troçava da vida
Escondia a tristeza
Tamponava as feridas
Mesmo as mais doloridas.
E seguia,
meio atabalhoado.
Meu pai era assim:
Flanava,
Viajava,
Sonhava.
Mentia?
Meu pai era assim:
Infância resplandecida
Nos seus gestos,
No deitar sobre as águas
Nas coisas que inventava.
No sabor que sentia
Na fruta recém colhida,
No gole de uma cachacinha
No preparo da caipirinha.
Nos jogos de linguagem,
Nas brincadeiras,
nas anedotas que contava.
Meu pai foi assim:
Partiu como um passarinho
Voou em busca de outro menino,
Que, de longe, o chamava.
Meu pai é assim:
Lembrança
que me acompanha,
Pó
de pirlimpimpim.
Tão leve,
que espalha
E fica.
Até o nunca mais,
nunca mais, nunca mais...
Suzana Márcia Dumont Braga. set/2011
Menino grande
riso fácil,
Brincava com o diário.
Seria frágil?
Meu pai era assim:
Troçava da vida
Escondia a tristeza
Tamponava as feridas
Mesmo as mais doloridas.
E seguia,
meio atabalhoado.
Meu pai era assim:
Flanava,
Viajava,
Sonhava.
Mentia?
Meu pai era assim:
Infância resplandecida
Nos seus gestos,
No deitar sobre as águas
Nas coisas que inventava.
No sabor que sentia
Na fruta recém colhida,
No gole de uma cachacinha
No preparo da caipirinha.
Nos jogos de linguagem,
Nas brincadeiras,
nas anedotas que contava.
Meu pai foi assim:
Partiu como um passarinho
Voou em busca de outro menino,
Que, de longe, o chamava.
Meu pai é assim:
Lembrança
que me acompanha,
Pó
de pirlimpimpim.
Tão leve,
que espalha
E fica.
Até o nunca mais,
nunca mais, nunca mais...
Suzana Márcia Dumont Braga. set/2011
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Faminta
(adaptação do conto de Murilo Rubião: Bárbara)
Bárbara, pedia
A fruta do galho mais alto,
O anel com a pedra mais rara,
O mais intenso dos beijos,
a viagem ao país mais distante.
Heróico, ele ia buscar.
Escravo, queria/não queria
À mulher, o tudo dar.
“E se ela pedisse a lua?”
Não sabia que a fome
Que a devorava
Era a de desejar.
Bárbara, pedia
A fruta do galho mais alto,
O anel com a pedra mais rara,
O mais intenso dos beijos,
a viagem ao país mais distante.
Heróico, ele ia buscar.
Escravo, queria/não queria
À mulher, o tudo dar.
“E se ela pedisse a lua?”
Não sabia que a fome
Que a devorava
Era a de desejar.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
segunda-feira, 18 de julho de 2011
lista de coisinhas a toa que me deixam feliz
A ideia da lista começou com Otavio Roth e deu origem a muitas outras. É só olhar na internet.
Começo a minha lista com uma dúzia de coisinhas a toa que me deixam feliz:
gargalhada de criança
sentir gosto de infância.
cinema em dia de semana.
viagenzinha e viajona.
lareira acesa
dança na cozinha
namorar olhando a montanha.
Família em volta da mesa
conversa de (não) jogar fora
Escutar som de viola.
Receber carta
Encontrar pessoas de quem estou saudadosa.
Começo a minha lista com uma dúzia de coisinhas a toa que me deixam feliz:
gargalhada de criança
sentir gosto de infância.
cinema em dia de semana.
viagenzinha e viajona.
lareira acesa
dança na cozinha
namorar olhando a montanha.
Família em volta da mesa
conversa de (não) jogar fora
Escutar som de viola.
Receber carta
Encontrar pessoas de quem estou saudadosa.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Biludamião
Damião e Bilu andam por aí.
Damião-Bilu, biludamião.
Damião vê através de Bilu.
homemcão vagam pela cidade,
dia noite, noite dia.
Um tilintar de moeda aqui,
Um naco de pão acolá.
Uma pinga ajuda pra danar.
Na noite branca,
Damião sonha (im)preciso:
Nuvens de afagos,
beijo na boca, abraço de filho.
Lá tudo é possível:
Cachoeira de espumante,
Música dançante,
Mulher extravagante,
roupa esvoaçante,
brilho exuberante.
A noite é pra valsar ao luar
Que se torna branco imenso
Como a cegueira de Damião.
No vácuo daquele instante
É pra Bidu que estende a mão.
Damião-Bilu, biludamião.
Damião vê através de Bilu.
homemcão vagam pela cidade,
dia noite, noite dia.
Um tilintar de moeda aqui,
Um naco de pão acolá.
Uma pinga ajuda pra danar.
Na noite branca,
Damião sonha (im)preciso:
Nuvens de afagos,
beijo na boca, abraço de filho.
Lá tudo é possível:
Cachoeira de espumante,
Música dançante,
Mulher extravagante,
roupa esvoaçante,
brilho exuberante.
A noite é pra valsar ao luar
Que se torna branco imenso
Como a cegueira de Damião.
No vácuo daquele instante
É pra Bidu que estende a mão.
Assinar:
Postagens (Atom)